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Para quando eu morrer

Quando morre alguém que eu considero importante para o mundo, fico triste como se fosse amigo que não vejo há muito tempo, mas guardo em espaço de carinho e gratidão no peito. Hoje, morreu Elke Maravilha, revolucionária simplesmente por existir. Transformadora simplesmente ao sair de casa e nos espelhar o que nunca teríamos coragem de ser. Foi assim também quando morreu Abujamra e Gabriela Leite por quem chorei uma manhã quase inteira. E continua sendo assim pelas 13 pessoas soterradas na periferia de Salvador, no ano passado, pela chacine do Cabula que o Estado não se responsabiliza, por todas as mortes diárias que nos impõem a violência e a falta de políticas públicas que nos protejam. Foram milhões no Nepal, no Haiti. São milhões na miséria do mundo. Há uns meses foi Rita e há pouco tempo Dra. Elvira e tio Edvaldo.  Outras tantas pessoas morrem diariamente e isso parece distante.

Uma vez, uma amiga muito querida, poucos dias antes de nos deixar, quando questionada se estava com medo de morrer, respondeu: “não, estou com saudade”. Penso assim também em relação à morte, não se trata de medo, mas de saudade.

Tenho ouvido falar muito dessa moça que um dia visita a todos sem exceção e venho pensando no meu momento. Fui afetado de maneira violenta ao ler “A máquina de fabricar espanhóis” e o espetáculo “Why the horse?” onde a atriz Maria Alice Vergueiro encena a própria morte, me levou para um lugar que eu ainda não saí. Enfim… Talvez, por isso, iniciei esta escrita e resolvi endereçá-la a você.  Fico imaginando quantos anos terei, qual será a causa, com quem e onde estarei…

Desde quando fiz “Odete, traga meus mortos” essas questões me rondam e cada vez mais. E percebo as partes que constroem o momento da morte: a hora do desencarne, a notícia aos mais próximos, burocracia de enterro ou cremação e principalmente o ritual do velório, o que confesso é onde mais me detenho quando imagino a minha hora. Participei de uns rituais desses que me amedrontaram demais, um falatório louco, absurdos proferidos por pastor, padre, gente sem noção que nem conhecia o pobre do defunto e não podia protestar contra as palavras sem sentidos emitidas ao seu lado. Claro que este momento também traz situações engraçadas, daquele riso preso que não podemos soltar para não demonstrar descaso com o sofrimento alheio.

Bem, o motivo pelo qual te escrevo é que eu gostaria de deixar claro que não quero sermões de desconhecidos, discursos eloquentes e vazios, com bíblia na mão… por favor!!! Como a “bunita” não diz a hora que vem, escolhi pessoas importantes na minha vida [você é uma delas] e que, de uma forma ou de outra, marcam um momento de transformação – aqueles que temos pequenas mortes ao longo da vida e significam mudanças significativas – para quando eu morrer, me enviarem alguma coisa [música, texto, imagem, recordação…] que faz lembrar de mim ou de nós dois juntos… sei lá! mas que sirva para recordar momentos que vivi e faça parte da celebração da minha vida, no ritual do meu velório.

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Obs.: Esta mensagem (atualizada para o post) eu enviei, em abril de 2015, a algumas pessoas que provocaram, de alguma forma, transformações na minha vida. Era o início de uma inquietação que pretendo transformar no meu próximo trabalho artístico. Compreendi esta ação como uma performance virtual que se concluía no retorno ou não de quem recebeu o texto. O silêncio, as imagens, os textos, as palavras, os telefonas desesperados que recebi, disseram muito e ainda reverberam em mim.

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